Plenário Virtual: Digitalizando o rito decisório na gestão pública

Plenário Virtual: Digitalizando o rito decisório na gestão pública

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Muitas vezes, quando pensamos em desenvolvimento de software, focamos excessivamente em linguagens, frameworks e arquitetura. Porém, a verdadeira missão de quem trabalha com tecnologia é resolver problemas reais que impactam pessoas. E um dos maiores gargalos na gestão pública sempre foi a burocracia do “papel” e a necessidade da presença física para tomadas de decisão.

Recentemente, tive a oportunidade de liderar o desenvolvimento do Plenário Virtual da AGETRANSP, um projeto que visava modernizar o rito de julgamento da Agência. Tradicionalmente, os julgamentos na AGETRANSP são realizados por meio das Sessões Regulatórias. A sessão regulatória é um evento mensal realizado por meio de videoconferência e transmitido ao vivo pelo YouTube, onde os conselheiros votam em processos de forma assíncrona.

Neste artigo, compartilho um pouco sobre o funcionamento dessa solução e os desafios de segurança envolvidos.

O que é o Plenário Virtual?

Diferente de uma videoconferência (como Google Meet ou Zoom), o Plenário Virtual é um ambiente de deliberação assíncrona, regido pelas Resoluções AGETRANSP 56 e 59. Ele permite que conselheiros analisem processos e registrem seus votos dentro de um período pré-determinado (geralmente 5 dias úteis), sem a necessidade de estarem todos reunidos na mesma videoconferência ao mesmo tempo, embora na AGETRANSP o Plenário Virtual busque ter a mesma dinâmica de votação que a sessão regulatória, sendo sujeito a regramentos semelhantes ao que é estabelecido na sessão regulatória.

Essa abordagem resolve um problema clássico de quórum e agenda, permitindo que a atividade regulatória continue fluindo independente de viagens ou imprevistos dos decisores.

O desafio da segurança jurídica

Se no artigo anterior falei sobre a facilidade do Single Sign On (SSO), aqui o buraco é mais embaixo. Em um sistema de votação que define multas e regulações de transportes, a autenticação simples não é suficiente. Precisamos garantir o Não-Repúdio.

Não-Repúdio (Irrefutabilidade) é a garantia de que o autor de uma ação não pode negar posteriormente que a realizou. É a prova técnica da autoria e integridade de um dado.

Para implementar isso, não basta apenas verificar “quem” está logado. É necessário criar um vínculo criptográfico entre o usuário, o voto e o momento da ação.

Como resolvemos isso?

Utilizamos uma combinação de hashing e carimbo de tempo. Ao registrar um voto, o sistema gera uma assinatura digital única que combina:

  1. O ID do usuário;
  2. O conteúdo do voto;
  3. O timestamp exato da transação;
  4. Um salt de segurança.

Isso gera uma hash imutável. Se qualquer vírgula do voto for alterada no banco de dados, a hash não baterá mais, invalidando o registro. É a tecnologia garantindo a integridade do processo administrativo.

Vantagens e Impacto Real

A implementação dessa tecnologia trouxe resultados que validam a importância da transformação digital:

Celeridade Processual

Os números falam por si. Em 2023, a Agência julgou 68 processos. Em 2024, com o Plenário Virtual em plena operação, esse número saltou para 188 processos julgados — um aumento expressivo de cerca de 168%.

O sistema foi responsável por destravar a fila de processos, sendo que 57% de todas as decisões do ano foram tomadas no ambiente virtual.

Em 2025, o Plenário Virtual foi responsável por alavancar a produtividade decisória do Conselho-Diretor a patamares nunca antes vistos, impulsionado pelo novo mecanismo de votação em blocos, que possibilitou o julgamento de blocos de processos com complexidade semelhante.

Economia e Sustentabilidade

Além da celeridade, há o ganho óbvio da eliminação de papel e a redução de custos logísticos para a realização de sessões presenciais.

Mas nem tudo são flores…

Como disse anteriormente, tudo em tecnologia é um trade-off.

Ao elevar o nível de segurança para garantir o não-repúdio, aumentamos a complexidade para o usuário final. Exigir assinaturas digitais ou múltiplas confirmações pode tornar a experiência de uso (UX) um pouco mais travada.

O desafio foi encontrar o equilíbrio: criar uma interface limpa e intuitiva, que escondesse a complexidade criptográfica no backend, para que conselheiros (que não são técnicos) pudessem votar com poucos cliques, mas com total segurança.

Conclusão

O Plenário Virtual provou ser um divisor de águas na atuação da AGETRANSP. Mais do que um módulo de software, ele se tornou um case de sucesso de como a engenharia de software pode atuar a favor do interesse público, tanto que seu código-fonte foi cedido para ser replicado em outra agência reguladora (AGENERSA).

Desenvolver para o setor público exige uma responsabilidade redobrada com a segurança e a integridade dos dados, mas o retorno em forma de eficiência para a sociedade compensa cada linha de código escrita. Se você é desenvolvedor, vale a pena olhar com carinho para os desafios que a gestão pública oferece; há muito espaço para inovação.

Matheus Martins

Matheus Martins

Engenheiro de Software Full Stack & Gestor de Segurança da Informação @ AGETRANSP

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